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Fundo branco
  • Foto do escritorRodrigo Corrêa de Barros

A incrível devoção pelas marcas

Trabalho em marketing desde a tenra idade. Fiz de tudo nesse campo.


Fui cableman do talentoso diretor de comerciais e filmes Percy Tamplin, aprendi dentro da sua produtora, a lendária Sir Laboratórios, a roteirizar. Depois fui para a Excel Innovator, genial pequena agência que tinha a conta da IKA e da brinquedos Lídice. Lá comecei a soltar meu texto e aprendi o quanto é valioso um bom trabalho de marca. A IKA liderava o mercado nacional de artigos em couro e seu potencial de resposta às campanhas era inacreditavelmente forte.


Veio nova fase e virei estrategista. Passei por uma fábrica de móveis e cozinhas chamada M’Vie (meu mais severo aprendizado, repassado com a disciplina oriental do diretor Makoto Inoue), de lá passei à já extinta Orbran onde, aos 19 anos já era o diretor de marca e marketing.

Até que fui contratado pela Construtora Thá para fundar o departamento de marketing da empresa, que experimentava um crescimento sem igual em sua história centenária.


Sou, então, o que chamam de velho soldado de trincheira. Só agora, depois de 20 anos a frente da minha própria empresa, começo a me enxergar moldando um novo caminho, puramente estratégico, analítico e, fundamentalmente, observador.


E é essa nova obsessão em desenvolver boa capacidade de observação que me tem feito bem de fato nesse novo ciclo. Através de lentes um pouco mais aguçadas pela idade, vou observando o caminhar da sociedade e de seus hábitos de consumo e percebo, enlutado, que há confusão entre o comprar e o realizar-se.


Quase sempre, os produtos e as marcas que os assinam cumprem o papel de atenuar carências afetivas, compensando o vazio existencial que assola nossa era.


Sabemos, é notório, que o momento de nossa curta história (enquanto sociedade pós-revolução industrial) é complexo no que diz respeito ao equilíbrio psicológico. Nós que vivemos sobre a face desde pedaço arredondado de minério, parecemos zumbis, caminhando do nada para lugar algum. Desde o momento em que acordamos até a hora em que nos desligamos – se é que nos desligamos – travamos um conflito cruel contra nossas mentes, atormentadas pelo desejo de melhor status social, pelos sinais que devemos emitir em nossas redes sociais, pela pressão laboral, pela pressão familiar, pela força contrária que o capitalismo desordenado causa em nosso estilo de vida...


Em algum ponto de nosso caminho recente, mudamos a ideia de que o senso de pertencimento está ligado ao ter, mais que ao ser. E as estratégias de branding, como nunca, estão se perpetuando nesse cenário, vendendo experiências que as fixam inexoravelmente na vida das pessoas.


Quer um exemplo? O que faz um homem inteligente, com renda acima dos 40 mil Reais, bom nível cultural, tendo viajado por partes diferentes do mundo, conhecedor de boa literatura, cargo de chefia, desfilar com sua moto Fatboy pela cidade, usando uma jaqueta de couro que custa mais de 3 mil Reais, orgulhoso em mostrar a logomarca gigante da Harley Davidson bordada em suas costas, tal qual um outdoor ambulante?

Amor e devoção! Só isso explica pagar para fazer propaganda de uma empresa bilionária, sem que ela nada ofereça em troca.


Essa devoção está lastreada em inúmeros aspectos psicológicos, muitos deles ligados à sensação de ser inferior, de estar em desvantagem diante de um mundo que lhe diz que, na verdade, a marca da Harley é seu novo escudo, seu ingresso de entrada para um universo de pertencimento, preenchendo temporariamente o espaço que devia estar ocupado por essência, cultura, valores e conhecimento.


Noutro dia fomos jantar fora e encontrei uma família conhecida, sentamos todos em mesas próximas para conversar melhor e a filha desse casal (pouco mais de 7 anos) logo se tornou a atração da noite.


Incrivelmente esperta e inteligente, a menininha nos brindava com suas histórias da escola, dos seus amigos e das aulas de artes quando, num estalo, olhando para meu celular que estava sobre a mesa me perguntou, indignada, porque eu ainda usava a versão sete de um aparelho que já está na versão doze?


Disse-lhe que o aparelho ainda funciona, e bem, e que não via motivo para trocá-lo. Senti, naquele momento, que ao pai tinha se aberto uma oportunidade única para falar a ela sobre a fluidez das coisas e da perenidade de outras... Para minha decepção ele ficou em silêncio.


Naquele instante percebi que somos, a um só tempo, reféns e patrocinados pelas marcas que amamos. Em nosso cérebro, de modo indelével, estão afixados stickers de logos, símbolos, nomes, modelos, códigos e endereços eletrônicos.


Muitos de nós carregam no coração a marca Louis Vuitton etiquetada em sua valva mitral, comprovando um trabalho bem sucedido de gerações de gestores de brand.


O marketing é faca de corte duplo. Pode mudar a história como quando Goebbels implantou o conceito de que a repetição contínua transforma a informação em pretensa verdade e esse conceito conduziu os nazistas pela Europa.


Ou pode ser transformador, como quando Ayrton Senna deixou sua fundação dedicada a cuidar da educação de crianças brasileiras vulneráveis, para que possam ter uma chance, uma chance fundamental.


E é você quem escolhe em que acreditar, com base em seu conteúdo intelectual, em sua tabela de valores e nos valores que carrega seu espírito.


Todo o resto é dispensável!

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